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Opinião

"Turismo: Que Futuro Queremos?"

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Turismo

Nuno Botelho

Cristina Siza Vieira

Cristina Siza Vieira

Presidente Executiva da AHP – Associação da Hotelaria de Portugal

Nos últimos 10 anos o mundo mudou muito rapidamente, Portugal transformou-se e, naturalmente, os modelos de Turismo que conhecíamos alteraram-se radicalmente.

Em 10 anos, as low-cost chegaram em força, compensando a quebra dos charters; novas formas de alojamento explodiram nas grandes cidades; o digital iniciou uma revolução na comercialização; a grande crise financeira mundial deixou marcas muito fortes; o país pediu ajuda externa e o Turismo teve que se reinventar.

A grave situação financeira que atravessámos levou à falência de vários operadores, os Fundos tornaram-se proprietários de hotéis e entraram como novos operadores no mercado.

Paralelamente, as privatizações que ocorreram em vários setores da economia tocaram também o setor do Turismo, tendo como exemplos mais expressivos a privatização da ANA e da TAP.

Ao mesmo tempo, as empresas de Turismo participam hoje num modelo inovador de parceria, que reforça a promoção dos destinos regionais; o quadro legal dos empreendimentos turísticos, agências de viagens e empresas de animação evoluiu e foi sujeito a várias revisões.

Em Portugal, falou-se pela primeira vez das taxas turísticas nos destinos. Lisboa foi a primeira a implementar o modelo em 2016 e hoje, em outros destinos, discute-se o seu alargamento, âmbito e fim.

Nos últimos anos, o mundo deparou-se com a Primavera Árabe; com novos ataques terroristas; com a eleição improvável de Donald Trump; a China subiu a 2ª potência económica mundial; a União Europeia vai perder o Reino Unido…

Mas o Mundo continuou a viajar. Passámos de 928 milhões em 2008 para 1323 milhões de turistas internacionais em 2017.

No pós-crise, foi o Turismo o setor que melhor reagiu. A partir de 2014, os resultados turísticos começaram a crescer e, em 2016, ultrapassámos o melhor ano turístico de sempre - 2007.

Fruto de toda esta conjuntura, os números do Turismo hoje são muito diferentes dos de há 10 anos.

A oferta, tanto de hotéis como de alojamento local, disparou.

Em 2007 existiam em Portugal 809 estabelecimentos hoteleiros, uma capacidade de 166 944 camas; em 2017 o parque hoteleiro é composto por 1490 estabelecimentos e 257 850 camas.

Quanto ao alojamento local, que viu a luz do dia em 2008, aproveitando a onda da sharing economy e a plataforma Airbnb, em 2017 detinha 54 537 unidades registadas, um volume aproximado de 229 mil camas, e de então até à data já há 77 414 mil unidades registadas, suplantando largamente o número de camas da hotelaria.

Mas, do lado da procura, os números também cresceram. Os principais indicadores da hotelaria/turismo comprovam o crescimento sustentável do negócio.

Em 2007 tínhamos 13,4 milhões de hóspedes, 39,7 milhões de dormidas e 7,4 milhões de receitas. 10 anos depois, fechámos 2017 com 20,6 milhões de hóspedes, que representaram 57,5 milhões de dormidas, e as receitas turísticas alcançaram um espetacular volume de 15,2 mil milhões € (o que significa, que em 2017 os turistas gastaram no nosso país 41 milhões de euros por dia, 1,7 milhões € por hora).

Podemos afirmar com orgulho que, em 10 anos, passámos de setor promissor a principal motor do crescimento da economia nacional, com um peso direto no PIB de 8% e no emprego de 7%. E significamos 50,1% da balança de serviços.

Portugal é hoje um país mais forte económica, social e politicamente, porque o Turismo é o motor de reconhecimento do nosso país como um fantástico País para viver, trabalhar e viajar.

Mas há desafios e nuvens no horizonte, agora que o aeroporto de Lisboa (finalmente) esgotou; que os destinos concorrentes da baía do Mediterrâneo regressaram em força; que o Brexit está à porta; que fluxos de imigrantes e emigrantes no Mundo se entrecruzam; que a tecnologia ameaça substituir o contacto humano. Agora que, entre nós, o debate sobre a capacidade de carga turística dos destinos, particularmente nas principais cidades, cresce de intensidade.

Todavia, questões estruturantes permanecem por resolver: os principais mercados emissores de dormidas para Portugal continuam a ser o Reino Unido, a Alemanha e a Espanha. Em termos absolutos, o Algarve continua a ser a região que mais turistas recebe (embora o Norte tenha experimentado um maior crescimento). O litoral do País continua a concentrar o grosso do investimento, de dormidas e de receitas, e o interior tem ainda dificuldades na captação de fluxos externos. A sazonalidade continua marcante, tal como a estada média na hotelaria está muito aquém da que é a prática em outros destinos turísticos e ao preço-médio sobra espaço para crescer.

Neste enquadramento, no 30º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, este ano a realizar em Lisboa, a pergunta impõe-se: afinal que futuro queremos para o Turismo em Portugal?