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Já há pétalas de toucinho em Lisboa. Obrigado, Zé Júlio Vintém!

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Luís Ferraz

Quem nunca fez a viagem até Portalegre para provar os melhores petiscos e pratos do receituário do norte alentejano no Tombalobos tem agora uma boa hipótese de redenção. José Júlio Vintém trouxe a sua cozinha até Lisboa, mais precisamente até ao Corpo Santo, junto ao Cais do Sodré. E, exulte-se, não se esqueceu das “suas” pétalas de toucinho!

Lisboa está mais rica, gastronomicamente falando, com a abertura, recente, do restaurante Picamiolos, uma casa de ambiente cosmopolita que se anuncia como uma viagem pelas “extremidades e miudezas”. Para melhor se perceber esta boa nova é necessário referir o histórico de José Júlio Vintém, figura que se impõe pelo físico que lhe valeu a alcunha de “Tomba lobos”, mas acima de tudo pela simpatia e arte de cozinhar o melhor que o norte alentejano tem para oferecer. Os petiscos sempre foram a maior das perdições para quem se deslocava e desloca até Portalegre (nas várias localizações do Tombalobos e também no recente Na Boca do Lobo) e se deixa levar, voluntariamente, pelas sugestões do chefe, entre pratinhos e confeções de grande substância.

Hoje, em Lisboa, no Picamiolos vamos poder encontrar alguns dos mais emblemáticos pratos de José Júlio Vintém que ajudaram a que o “velhinho” Tombalobos, na zona rural de Portalegre, já na serra de São Mamede, tenha conquistado diversos Garfo de Ouro, atribuídos pelo Guia Boa Cama Boa Mesa. E, nada melhor do que começar com as magníficas Pétalas de toucinho (€6), um prato que é quase uma assinatura, já que Vintém o serve desde 2005 (!) e que, “simplesmente” são fatias muito finas de toucinho de porco preto ligeiramente aquecidas já no prato e servidas com alho, tomilho-limão e sumo de limão.

Mas, há mais entradas de fazer corar (de inveja): As viciantes Costeletinhas de coelho fritas com mel e limão (€12), os “suaves” Miolos de borrego panados (€10), as Molejas (€9) e o Focinho de porco grelhado (€9), servido em gulosos pedaços, em que se destaca a pele crocante. Porque o Alentejo é sempre uma referência, Zé Júlio não esqueceu o cação, servido em “rebuçados” (pedaços fritos em polme), acompanhados com molho tártaro (€10,50). Para refrescar e respirar, a ementa também sugere Corações de alcachofra (€12) e Salada de corações de alface (€8), porque no conceito do Picamiolos, nem todas as miudezas são, obrigatoriamente, de origem animal.

Com a previsão de, muito em breve, começar a servir almoços, onde cada dia terá um prato fixo (Feijoada de lebre, Arroz de línguas de bacalhau ou Cozido de grão), o novo restaurante, que é uma parceria entre o chefe alentejano e os proprietários do By The Wine, Leonor Brito e Ricardo Santos, aposta numa ementa comedida, onde cabem duas sopas e sete principais. Assim, deixando para trás a Sopa de tomate com ovo escalfado (€6) e o Gaspacho de abacate (€6,50), a curiosidade aponta o caminho: Costeletas de sardinha, com arroz de tomate (€14) e Arroz de bochechas de bacalhau (€21), este último criado propositadamente para a aventura lisboeta. De Portalegre e com provas dadas chega a Açorda de fraca (€14), uma ave que Zé Júlio gosta de trabalhar, mas também o Porco preto grelhado com migas (€15) e o Touro bravo grelhado (€25). Experiência certeira e sempre saborosa é o Rabo de boi com batata-doce e puré de cherovia (€16). Fecha a oferta, a Barriga de atum com puré de grão (€28).

Para acompanhar, a garrafeira do restaurante aposta em quatro regiões vínicas, com algumas referências de excelência e preços para todas as carteiras, e serviço de vinho a copo. Nas sobremesas, o Picamiolos mantém a sua matriz alentejana, mas com abordagens que ajudam a terminar com (relativa) leveza, como Sericaia com compota de ruibarbo ou Boleima com gelado de caramelo. Para assumir o espírito da casa, arrisque a Mousse de chocolate com crumble de bacon (€5).

O restaurante Picamiolos (Rua do Corpo Santo, 2, 4 E 6, Lisboa. Tel. 215890487) encerra ao domingo. Logo à entrada, e para que não haja dúvidas, as boas-vindas são dadas por uma enorme cabeça de porco, que empurra os visitantes para o bar, com bancos altos. No piso térreo existem apenas 30 lugares, em ambiente mais informal. Lá em cima, com diversos cantos e recantos intimistas espalha-se mais uma centena de cadeiras.

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