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Silver Spoon: Quando o capitalismo se serve à mesa

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O cenário é sumptuoso, um apartamento recuperado com vista para o Tejo e para a Ponte 25 de Abril, gigante e recheado de obras de arte de um particular (curiosamente ligado de forma indireta a um dos primeiros escândalos da Bolsa em Portugal) especialmente decorado para este jantar. Nesta habitação numa zona central de Lisboa decorre até sábado mais um conjunto de jantares organizado pelo coletivo Silver Spoon, desta vez sob o lema “Os Filhos do Capitalismo”. Limitado a pouco mais do que meia centena de pessoas, num local secreto, e apenas revelado horas antes de começar, estes jantares sãoé organizados pela Silver Spoon, em parceria com o Four Seasons Hotel Ritz Lisbon e o Chefe Executivo Pascal Meynard, em parceria com Aija Pedersen, uma chefe da Letónia, formada em filologia residente na Dinamarca e que passou por restaurantes como o Sortebro Kro, Grønbech & Churchill, Almanak e NaCl.

Regressando a “Os Filhos do Capitalismo”, regressa-se também ao tradicional jogo de Monopólio, com três enormes mesas espalhadas pelas divisões da casa onde o tabuleiro é reproduzido e onde os convidados vão fazer a refeição. Mal se entra na casa é entregue a cada um uma nova identidade, através de um cartão de visita com um nome pomposo e um cargo importante, e começa o jogo. A submissão ao capital e às regras do poder chegam logo a seguir quando um colaborador entrega um ligeiro aperitivo precisamente chamado Monopoly e feito de sementes a cada convidado. Só que, para o subjugar, não o deixa tocar no pequeno saco, alimenta-o com um pinça diretamente na boca antes do copo de espumante.

Está dado o mote para “Os Filhos do Capitalismo”. Depois de sentados, os convidados passam automaticamente a fazer parte de uma equipa que vai jogar um Monopólio especial. Cada lado da mesa é uma equipa que, para conseguir comer tem de fazer rodar os dados e avançar pelo tabuleiro gerindo o fundo de maneio inicial. Os dados estão lançados e a primeira coisa a chegar à mesa é um prego afiado. Serve para rebentar um balão e assinalar a bolha imobiliária de 2008 que deu início à crise. O primeiro prato sentado chama-se “Real Estate” e é servido sobre um tijolo, também um símbolo do imobiliário. Há três alternativas espalhadas pela mesa: “Terrina de cabeça de Porco”, “Salmão Fumado” e uns “bombons de fígado de galinha”. Acompanha as três propostas um Vale Divino Branco Dão 2012.

As “Energias Renováveis” são o desafio que se segue. À mesa, dentro de uma lousa escura chega a poluição, a esperança verde e as energias renováveis. O prato, composto por cavala, micro camarões e outros ingredientes parece o mar poluído, acompanhado por uma gota plástica que simboliza o óleo derramado nos oceanos. Esteticamente agressivo, é saboroso e capaz de transmitir a mensagem do desastre ecológico em que se transformou o ambiente marinho. É servido um Camolas Selection Rosé 2015 com esta “tragédia ambiental”.

O quarto momento do jantar do coletivo Silver Spoon sob o lema “Os Filhos do Capitalismo” avança pela noite com as “Finanças”. Antes roda o dado, avança-se no tabuleiro até chegar uma falsa maçaroca de milho, feita de frango, que simboliza os alimentos transgénicos, pensados para erradicar a fome do mundo mas, afinal, apenas fontes de receita elevada para grandes multinacionais, O Vale da Capucha Tinto 2011 é o complemento perfeito para este prato.

Ora em cada grande sociedade capitalista, os “Transportes” não podiam deixar de fazer parte desta alegoria alimentar. Uma caixa plástica de comida “take away” chega à mesa de seguida com carvão, pedaços enormes de madeira e raízes cozidas e depois fumadas para simbolizar o alcatrão onde os transportes de mercadorias são feitos, a devastação da floresta para obter matérias-primas e a poluição do meio ambiente. Num discreto prato, espalhado entre o carvão e amadeira, aparece uma bochecha de porco ibérico com romão e raízes de Tupi. O vinho é um Vale Divino Tinto 2012.

O último momento desta refeição é dedicado à imprensa e aos grupos de “Média”. Primeiro são espalhados jornais por cada lugar, chegando de seguida um prato transparente, carregado de doces com um pequeno senão. A chefe Aija Pedersen vem à mesa pedir cuidado com o que se vai comer. Diz ela que “nem tudo o que é, parece”, e que tal como na informação nem sempre o rigor e a verdade são impressos, também nesta sobremesa nem tudo se come. E na verdade, uma enorme pepita de chocolate, apetitosa e cremosa, acaba por se descobrir ser uma simples pedra do rio. O Porto Quinta das Tecedeiras Tawny Reserva termina a refeição.

http://images.impresa.pt/bcbm/2016-11-18-LIS_792_aspect16x9.jpg/originalO jantar “Os Filhos do Capitalismo” tem muito mais detalhes, pormenores e segredos que, por ser um evento exclusivo, a organização pede para não serem revelados de forma a não estragar a surpresa aos convidados dos jantares que ainda decorrem hoje e amanhã. Tem um custo de €100 por pessoa e a certeza de ser um jantar único e impressionante. Uma experiência alegórica que faz com que a cada prato a essência consumista seja repensada, bem como o rumo da sociedade moderna. Há poucas vagas ainda disponíveis. As inscrições são feitas na página da Silver Spoon.

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