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Vinho Medieval de Ourém: Património nacional com 800 anos de história

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Medieval de Ourém, Abadia dos Tomarães, 2015, DOC Encostas d’Aire da DIVINIS – Adega de Ourém, com chegada ao mercado para breve (esquerda) e Quinta do Montalto, Medieval de Ourém, 2016, DOC Encostas d’Aire (direita)

Estamos na Região das Encostas d’Aire, a Denominação de Origem localizada na parte norte do mapa da Região dos Vinhos de Lisboa, entre o litoral e as serras de Aire e de Sicó, com o distrito de Leiria a predominar em conjunto com Ourém, já no distrito de Santarém, da qual fazem parte duas sub-região: Alcobaça e Ourém. Foi por aqui que, no século XII, se estabeleceu a Ordem de Cister, em particular no Mosteiro de Alcobaça, em Alcobaça, e na outrora Abadia de Tomaréis, em Ourém. Desbravaram-se terras e construíram-se as granjas para pomares e olivais, e o plantio da vinha para a produção de um vinho branco, ao qual é misturada uva tinta.

Dos ofícios implementados pelos monges agrónomos ganha destaque a produção vinícola ou não tivesse o vinho o devido destaque nas liturgias eclesiásticas. Da história nasce, assim, o legado dos céus com a definição de “palhete”. Um vinho de origem medieval, com 800 anos de história e feito com base em critérios ancestrais e rigorosos no que ao processo de vinificação diz respeito e, por essa razão, passou a designar-se de Vinho Medieval de Ourém.



Na produção deste vinho peculiar, a primeira vindima cinge-se às uvas brancas que, de acordo com a legislação, é a casta Fernão Pires. As uvas são esmagadas numa prensa disposta no interior do lagar de pedra contíguo à janela da adega, disposição comum às adegas das antigas quintas da região. De seguida, o mosto obtido é depositado, no prazo máximo de 24 horas, em barricas ou vasilhames de madeira, de modo a ocupar 80% da capacidade total, para dar lugar à fermentação espontânea efectuada sem o contacto com a película.



Quanto à segunda parte do processo, a atenção centra-se na Trincadeira, a casta tinta com que também é feito o Vinho Medieval de Ourém. Os cachos são desengaçados (separar os bagos dos cachos) e submetidos à fermentação com curtimenta (quando as películas, as grainhas e os engaços estão em contacto durante a fermentação) no lagar por um período de tempo calculado entre quatro a dez dias, durante o qual o mosto é recalcado duas vezes por dia. Findo o processo de vinificação, o mosto de uvas tintas é adicionado ao mosto branco até preencher os restantes 20 % em falta.

Já o período de estágio quer-se curto, porque se quer jovem, e há quem ainda preserve a tradição associada à forma como é plantada a vinha. A Quinta do Montalto, em Olival, freguesia de Ourém – que, a par com a povoação da Urqueira, terão sido o berço da supracitada referência à Abadia de Tomaréis – é disso exemplo. Dos 15,5 hectares de vinha, 0,74 hectares estão destinados para a produção do vinho “palhete” e a plantação das videiras respeita os métodos criados pelos monges da Ordem de Cister, com a vinha a formar um “V”.

A título de curiosidade, actualmente, há cerca de oito produtores de Vinho Medieval de Ourém detentores de pequenas parcelas de vinha – em média, com dois hectares – certificada para o efeito, de acordo com os dados da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa.

Em suma, o outrora conhecido como vinho “palhete” que, no século XX, esteve em vias de desaparecer do universo vinícola, resiste aos sinais do tempo com a certificação datada de 11 de Fevereiro de 2005. Um excelente mote para rumar à Região das Encostas d’Aire, partir à descoberta, visitar as adegas onde é produzido, saber mais sobre a sua história e, claro, provar este vinho que se quer novo e a combinar com pratos leves.

(textos adaptados a partir do guia enoturístico “Vinhos de Lisboa” by Boa Cama Boa Mesa, produzido em parceria com a Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa).

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