Boa Cama, Boa Mesa

Siga-nos

Perfil

Perfil

Vinhos

Vinhos naturais: Está na moda regressar ao passado?

  • 333

Seguindo o movimento da sociedade, igualmente observável no mundo da gastronomia, os vinhos estão também a seguir a tendência de ir ao encontro da essência e da pureza de métodos, da vinha até à adega.

Vinhos naturais. Vinhos biodinâmicos. Vinhos orgânicos. Vinhos biológicos. A comunicação e marketing em redor dos vinhos não se cansa de encontrar “rótulos” para os vinhos que chegam, diariamente, aos mercados, tanto nacionais, como internacionais, que a exportação e a notoriedade além-fronteiras continua a ser delicadamente fundamental para a sobrevivência e/ou crescimento do setor vitivinícola em Portugal.

A partir da próxima quarta-feira (dia 7 de junho) e durante três dias, o Centro de Congressos do Estoril acolhe o primeiro Wine Summit, que vai procurar analisar e discutir as principais questões que envolvem o grande mundo dos vinhos, com dezenas de oradores de reputação internacional. O primeiro painel vai ser dedicado, precisamente, aos chamados “Vinhos Naturais”, com a intervenção de abertura a cargo de Alice Feiring, jornalista e “autoridade reconhecida no universo dos vinhos naturais pelos quais nutre enorme paixão”, que vai tentar responder à questão, a partir de uma visão “mais filosófica e mística”: “O que é, exatamente, um vinho natural?” Este tema vai merecer também uma intervenção de Jamie Goode que, graças ao seu doutoramento em Biologia das Plantas, prefere “uma abordagem eminentemente científica” aos vinhos naturais, enumerado os grandes desafios que os produtores enfrentam, tanto na vinha, como na adega.

Rui Falcão, um dos organizadores do Wine Summit Cascais’17 (ainda existem ingressos disponíveis), em conversa solta com o Boa Cama Boa Mesa ajuda a esclarecer a tendência, que é muito mais que uma moda, do vinho “na sua versão mais despida e natural”.

Afinal, o que é, exatamente, um vinho natural?
Não existe uma definição perfeita para os vinhos chamados naturais, mas o conceito assenta sobretudo na ideia de pureza e honestidade, na insistência em deixar ser a natureza a falar, na busca de criar um vinho que seja um espelho fiel do lugar onde nasceu. Inclui conceitos como agricultura orgânica e sustentável, procedimentos que devem ser alargados à adega. Não é permitida a utilização de corretivos ou de facilitadores que não sejam naturais à vinha. Se quisermos podemos dizer que é o vinho na sua versão mais despida e natural. Acima de tudo, a grande diferença é o conceito ético associado, bem como uma recusa objetiva de intervenção num processo que deve ser regulado de forma natural pela natureza.

Quando se fala em vinhos naturais estamos a agrupar os chamados vinhos biológicos e/ou biodinâmicos?
Os vinhos biológicos ou orgânicos, tal como os de agricultura biodinâmica, podem não ser “naturais”. Podemos falar de agricultura orgânica sem que depois os procedimentos “naturais” sejam seguidos na adega. De uma forma simplista podemos dizer que vinhos naturais são “orgânicos” tanto na agricultura como na enologia.

Mas, todos estes rótulos não acabam por confundir o consumidor?
De certa forma podem ser confusos. Os vinhos biológicos ou orgânicos, tal como os de agricultura biodinâmica, podem não ser “naturais”. Podemos falar de agricultura orgânica sem que depois os procedimentos “naturais” sejam seguidos na adega. De uma forma simplista podemos dizer que vinhos naturais são “orgânicos” tanto na agricultura como na enologia. Alguns acabam por ser uma evolução de movimentos que começaram mais descontraídos, muitas vezes evoluindo para uma postura mais “radical”. No entanto, o que mais interessa à maioria dos consumidores que se preocupam com o que comem e bebem é o facto de os vinhos serem provenientes de uma agricultura sustentável.

Os vinhos naturais estão para ficar ou são apenas uma moda ou uma tendência, que acompanha as opções dos consumidores a partir dos movimentos da sociedade, cada vez mais preocupada em consumir “saudável”?
No fundo é um regresso ao passado quando a agricultura ainda não dispunha da oferta de agroquímicos e quando na adega ainda não existiam os recursos enológicos do presente. É quase como um regresso à pureza do passado aceitando os humores e ciclos da natureza.

Mas, pode-se afirmar que o vinho natural é mais saudável?
Não, essa alegação é impossível de fazer. Não há nada no vinho que possa ser considerado prejudicial, para além, claro, do consumo de álcool em excesso. Quando muito podemos indicar que o vinho natural é mais autêntico na afirmação da personalidade.

Em Portugal, onde se podem encontrar vinhos naturais?
Existe produção em todas as denominações de origem nacionais. Entre muitos outros exemplos podemos referir os vinhos do Vale da Capucha, Casa de Mouraz, Quinta da Serradinha e Aphros.

Do ponto de vista da produção e, eventualmente, para o consumidor final, os vinhos naturais são mais baratos?
As contas financeiras não são imediatas. Por um lado existe uma poupança substancial na ausência da necessidade de utilização de agroquímicos, controlo de pragas, etc. Por outro lado, a produtividade, medida em toneladas de uvas por hectare, tende a diminuir o que significa um custo maior. Ou seja, no fundo as contas acabam quase por se equilibrar. O que aumenta significativamente são os riscos inerentes já que não é permitida a utilização de agentes químicos no caso de ataques de doenças ou pragas. Mas, mais importante que o fator económico percebe-se uma melhoria significativa na qualidade da fruta e, consequentemente, do vinho, quando a terra fica liberta da prisão da agricultura de síntese. Para além, claro, da defesa do planeta para as gerações futuras.

(Texto publicado no Expresso Diário de 1/06/2017)

Acompanhe o Boa Cama Boa Mesa no Facebook, no Instagram e no Twitter!