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Guia Boa Cama Boa Mesa: 15 anos depois, o que mudou?

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Ritz Four Seasons Hotel Lisboa, em 2003

Alberto Frias

Em 2003 era lançada, sob a chancela do Expresso, a primeira edição do Livro da Boa Cama e da Boa Mesa. 15 anos depois, quase tudo mudou, a começar pelo guia mas, acima de tudo, pelos seus grandes protagonistas: os restaurantes e hotéis

Foi há exatamente 15 anos, altura em que esta que vos escreve cumpria o segundo ano do curso de Jornalismo na Universidade de Coimbra, que tudo começou.

Tinha 19 anos e lembro-me de ver o livro de capa laranja (era assim o primeiro número) no porta-luvas do carro dos meus pais. Sabia lá que 12 anos mais tarde acabaria por me juntar à equipa de valentes que por altura da Páscoa oferece ao país aquela que é a Bíblia incontornável dos melhores alojamentos e restaurantes do país.

Perdoe-me a concorrência mas este é um texto escrito na primeira pessoa, daí que a decisão de elevar o Guia Boa Cama Boa Mesa a livro sagrada seja da minha inteira responsabilidade - não nego, no entanto, que a designação possa ter sido usada em sede de redação para abreviar conversa. “Passa aí a Bíblia de 2016 para confirmar uma coisa” será sempre o caminho mais curto para adiantar serviço e, convenhamos, é uma definição muito próxima de ser brilhante.

Bom, mas adiante. Daríamos belíssimos protagonistas desta história mas para o caso preferimos manter-nos apenas como fiéis mensageiros. No Guia Boa Cama Boa Mesa as personagens principais são, justamente, as camas e as mesas que fomos conhecendo e visitando ao longo dos anos, são os chefes de cozinha e os donos dos hotéis, pousadas e turismos rurais que tão simpaticamente se prestaram à nossa avaliação.

De 2003 até hoje mudou muita coisa não só na configuração editorial do guia como também nos critérios de avaliação e na atribuição de prémios. Por exemplo, os iniciais Garfo e Chave de Ouro estenderam-se a Garfo e Chave de Platina, aos quais se juntam este ano os Garfo e Chave de Prata. Porquê? pergunta o leitor. Porque entendemos que ficar pelas Platinas e Ouros deixava uma série de sítios de excelência para trás.
Por isso, este ano temos um total de 62 premiados - mas sobre esses falaremos amanhã, o dia em que se apresenta oficialmente a edição de 2018 do Guia Boa Cama Boa Mesa.

Até lá recuamos no tempo até 2003 para perceber que da História do BCBM fazem parte uma série de nomes incontornáveis da hotelaria e da gastronomia, que ainda hoje figuram entre os melhores do país e do mundo. Alguns terão mudado de imagem, de proprietário, de rumo ou até de ramo de negócio e outros terão fechado portas.

Felizmente são muitos que se mantêm firmes, anos após ano, nas páginas do Guia, num trabalho contínuo de constante evolução que revela a vontade de crescer e de ser sempre um bocadinho melhor e mais ajustado ao tempo em que vivemos.

Um bom exemplo disso é o Ritz Four Seasons Hotel Lisboa vencedor de uma Chave de Ouro na primeira edição (e daí em diante ininterruptamente até 2017), e que em 2003 anunciava como mais-valia dos quartos os sistema hi-fi. Leu bem, um sistema de som de alta-fidelidade que na altura era o topo da tecnologia de nova geração. Hoje, já está garantido o wi-fi em todo o hotel, que entretanto também se prestou a três remodelações que lhe deram nova cara, um ar mais moderno e afinou ainda mais um serviço que já era, e continua a ser, irrepreensível.

Lembra-se do Hotel Carlton, em Lisboa? É natural que já não… Hoje é o Pestana Palace. A fachada cor-de- rosa passou a azul, a decoração foi sendo objeto de pequenas, mas muito valiosas alterações e o serviço especializou-se na satisfação do cliente fazendo-o chegar ao pódio dos hotéis mais conceituados, não só a nível nacional mas também internacional. Foi a primeira casa de Madonna quando se mudou para Portugal.

Terminamos o regresso ao passado no Penha Longa Resort, em Sintra, que, em 2003, a par dos dois gigantes já mencionados, arrecadou uma Chave de Ouro e que, à primeira vista e à data da primeira edição, era muito pouco parecido com o que é hoje. Ouviu-se alguém dizer na redação que a fachada do hotel há 15 anos “fazia lembrar o Centro Comercial Colombo, em construção”. Pior: que parecia um motel de beira de estrada nos arredores da Disneyland, na Florida. Hoje, veja-se por fora e por dentro e tirem-se notas de como deve ser um hotel de luxo exemplar.

Estes três, que não saíram da mira do Boa Cama Boa Mesa, e que durante 14 anos consecutivos figuraram na lista de premiados, são o exemplo da excelência que se procura durante uma avaliação, mas sobretudo provam que é possível aguentar um nome de sucesso ao longo do tempo. Será que este ano vão acrescentar mais uma Chave à já coleção? Aguardemos.

Na gastronomia a conversa é outra e bastante mais complexa. Em 15 anos, os hábitos à mesa mudaram drasticamente e quem disser o contrário está só a desmentir um facto consumado. O “boom” da alta cozinha francesa, a promessa de experiências gourmet, os menus de degustação e o aparecimento de novos chefes, novas cozinhas e do conceito de fine dining resultaram em que muitos restaurantes tradicionais fossem ficando esquecidos, em muitos casos pela simples e natural evolução das modas culinárias, noutros por pura inércia, há que dizê-lo também.

Felizmente, a lista de sobreviventes que se souberam reinventar ao sabor dos anos é bastante mais extensa do que a dos “desaparecidos em combate” e esses, muitos dos quais premiados com o Garfo de Ouro na edição de 2003, continuam de pé e de boa saúde a mostrar que venha o que vier, a comida de panela terá sempre lugar entre as melhores do país.

Se dúvidas houver, Justa Nobre, que em 2003 era citada nas páginas do Guia como “Dona Justa” é a lenda viva dessa promessa. Começou há mais de 40 anos com O Nobre, na Ajuda, em Lisboa, um espaço que rapidamente ficou famoso pela boa comida e pela clientela de elite (Mário Soares era um dos habitués). Uns meses depois de ter recebido o Garfo de Ouro fechou as portas e mudou de morada. Em 2017, a chefe que assina a Sopa de santola mais famosa do país, voltou ao bairro onde começou e abriu o restaurante À Justa, uma versão mais pequena do primeiro Nobre, onde se diz mais feliz do que nunca pelo tão ansiado regresso à origem.

E depois, porque também gostamos de dizer que somos visionários nesta matéria, já em 2003 o restaurante Il Gallo D’Oro, na Madeira, recebia o Garfo de Ouro, conquista que aliás tem vindo a repetir em todas as edições. Em 2009 desperta atenções do Guia Michelin e recebe, nesse ano, a primeira e única estrela atribuída no Arquipélago - portanto seis anos depois de os jornalistas do Expresso terem identificado o restaurante chefiado pelo francês Benoît Sinthon como um dos melhores do mundo.

Os restaurantes Chico Elias, em Tomar, e A Bolota, em Elvas, compunham o ramalhete dos Garfo de Ouro, em 2003. Continuam a ser excelentes restaurantes, que não haja dúvida, mas são sobretudo escolhas seguras e consistentes no que à boa comida diz respeito, tendo, no entanto, deixado o pódio dos melhores de Portugal. Lamentamos, essencialmente, o facto de Júlia Vinagre ter abandonado A Bolota, que entretanto se virou para uns digníssimos almoços de domingo em regime de buffet. Sobre o Chico Elias o que nos ocorre dizer é que se mantém igual ao que sempre foi, sem malabarismos publicitários, ou alterações na ementa… na verdade, indiferente a qualquer movimento de mudança dos tempos e fiel à qualidade do que oferece. Continua e continuará a ser uma escolha certeira e segura. Tão segura como o Fialho, em Évora, ou o Estoril Mandarim, o primeiro restaurante chinês “a sério” de Lisboa (que na realidade é no Estoril).

Mas nem tudo são rosas… expressão que nos lembra o ataque feroz que a gastronomia alentejana sofreu com o encerramento súbito, em 2015, do restaurante São Rosas, em Estremoz - também ele premiado da primeira edição. Mas não foi caso único de desgosto. Miguel Esteves Cardoso, em tempos idos, terá dito que Luís Suspiro, chefe do restaurante Condestável, no Cartaxo, era o Mourinho da gastronomia. De futebol percebemos pouco mas boa comida é connosco e de facto Luís Suspiro, um dos chefes premiados na primeira edição do Boa Cama Boa Mesa, foi um dos grandes ícones gastronómicos do Ribatejo, uma rockstar dos tachos que entretanto se eclipsou da ribalta. Encontramo-lo em Sesimbra, onde é consultor de pastelaria num restaurante de peixe e marisco. O Condestável, ainda que de forma silenciosa, continua em funcionamento.

O texto já vai longo e a fome já aperta - escrever sobre comida tem destas coisas. Podíamos discorrer longamente sobre cada um dos nomes vencedores dos últimos 14 anos, mas para já apontamos a mira à edição de 2018 que está quase a sair do forno e promete muitas novidades. Desde já, um grafismo mais fresco, mais de 1000 sugestões de alojamentos e restaurantes, conteúdos especiais e mais premiados, com a criação do prémio Prata, que se junta aos já tradicionais Ouro e Platina.

Contamos tudo amanhã. Até lá, Boa Cama e Boa Mesa.

(Texto adaptado do artigo publicado no Expresso Diário de 22/03/2018)

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