Boa Cama, Boa Mesa

Siga-nos

Perfil

Perfil

Boa Vida

Roteiro: Onde comer nas 7 Aldeias, que agora são Maravilhas de Portugal

  • 333

Portugal falou e elegeu as 7 Maravilhas Portugal - Aldeias. São sete sítios remotos, preservados pela História e guardados para sempre na memória dos seus habitantes. Portugal é maravilhoso e nós mostramos-lhe porquê.

Norte, centro, sul, litoral, interior e ilhas. As sete aldeias mais bonitas do país já foram escolhidas e nós fomos ver onde se escondem as suas pérolas gastronómicas. Uma viagem à boleia da eleição das 7 Maravilhas de Portugal - Aldeias.

Dornes
Ir a Ferreira do Zêzere e não passar em Dornes é deixar escapar uma das paisagens mais bonitas do Centro do país. Aliás, bem vistas as coisas, e sem desfazer na sede de concelho, se só tiver tempo para uma paragem é em Dornes, mesmo ao lado de Castelo do Bode e do famoso Lago Azul, que vai agradecer a sugestão. Dornes é caso único em Portugal, não só por ser oficialmente uma vila que prefere ser chamada de aldeia, mas, e sobretudo, por ocupar uma pequena península de terra que entra pelo rio Zêzere e por estar rodeada do mais puro verde que a Natureza é capaz de entregar. Na linha de horizonte, salta à vista a Torre Templária depositada no centro da “aldeia” que, dizem os registos, terá sido a primeira de arquitetura pentagonal a ser construída em Portugal. Não está aberta ao público, mas não deixa de ser a atração principal da terra. Isso e o rio, naturalmente, que no verão se transforma em praia fluvial. É dele - do rio - que chega também um dos pitéus mais apreciados na região, o achigã, que, no caso, é o peixe mais abundante nas águas que abraçam Dornes. Pode prová-lo no restaurante O Rio, uma casa familiar dedicada à gastronomia local, onde o bucho recheado, os maranhos e a tarte de chícharo também aparecem na ementa. A esplanada debruçada sobre o rio - era mais ou menos óbvio que assim fosse - é onde vai querer fazer as refeições.

Sistelo
É conhecida como o “Tibete português” pela organização em socalcos que, por aqui, demonstram uma forma secular de cultivo de milho e pastagem de gado. Acrescentamos, se nos permitem, que o silêncio e o bucolismo da paisagem de Sistelo também contribuem para as semelhanças com o território asiático. Fica fora de mão, qualquer que seja o caminho, e talvez por isso ainda permaneça fora da mira turística - coisa que não vai durar muito. A meia hora de viagem, mais coisa menos coisa, que separa esta aldeia com 268 habitantes de Arcos de Valdevez pode ser dura e se falarmos da beleza da terra não for incentivo suficiente para se pôr a caminho, então que seja para provar uma das carnes de vaca mais tenras do nosso país. É precisamente nos socalcos que envolvem a aldeia que se encontram os pastos onde vive feliz a raça Cachena, bovinos de pequeno porte originários do Alto Minho e com denominação DOP desde 2002, que aqui se servem em posta grelhada ou frita e a acompanhar, quase sempre, com arroz de feijão terrestre. Em Sistelo, infelizmente, não há poiso para refeições de espécie alguma, pelo que terá de cumprir cerca de 20 minutos de carro em direção a Arcos de Valdevez para encontrar o restaurante Casa Real - O Matadouro, uma casa familiar que se especializou em carne barrosã mas que entretanto alargou o serviço ao sistema de buffet. Não é o ideal, mas é a forma mais imediata e gulosa de passar o dente por todas as especialidades da terra, entre elas o cozido, o bacalhau à Lagareiro e, claro está, a mista de carnes com enchidos caseiros. A vista sobre o Rio Vez é um acrescento simpático.

Fajã dos Cubres
É seguro afirmar que uma aldeia onde moram apenas três pessoas é um sítio praticamente intocado pelo Homem. Já teve escola primária e terá havido alturas em que o número de moradores ascendia a vinte, mas por agora a Fajã dos Cubres fica-se por um trio de resistentes. Mantém ainda algum movimento durante o dia, muito por causa dos pescadores e agricultores que por aqui fazem a sua vida. É remota, tanto quanto pode ser uma aldeia escondida na costa norte da ilha de São Jorge, nos Açores, mas isso não interessa nada quando, à chegada, se percebe que se este só não é eleito um dos sítios mais bonitos do Planeta precisamente porque pouca gente o conhece. Banhada pela lagoa da Fajã, está separada do mar por um anel finíssimo de areia preta de onde se podem ver meia dúzia de casas e a torre da igreja. Tudo o resto é prado e falésia. E verde, muito verde. Do mar chegam as amêijoas gigantes, que se chamam assim pelo tamanho absurdo com que se apresentam - mais ou menos o triplo do que é costume encontrar - e o único sítio onde é possível prová-las é no Snack-Bar Costa Norte, que completa o menu com um belo naco de vaca (que pastam nas traseiras da casa) e o famoso queijo de São Jorge.

Piódão
Entre “aldeia presépio” ou simplesmente aldeia de xisto, deixamos ao critério do leitor a escolha do nome que mais apraz, na medida em que ambos se adequam na perfeição a esta pequena aldeia escavada, em socalco, na Serra do Açor, em Arganil. A organização meticulosa não se fica pela geometria das ruas, estende-se também à própria arquitetura popular que imortalizou o material endógeno da região, o xisto, nas paredes e telhados das casas, nas quais os únicos apontamentos de cor são as janelas e portas pintadas de azul. Sem grande surpresa, a paisagem envolvente é dominada pelo verde profundo da floresta que reveste a aldeia. Apesar de muito pequena e ainda menos habitada (contam-se, atualmente, 64 habitantes permanentes), o facto de integrar a rede de Aldeias Históricas de Portugal trouxe um fluxo turístico inesperado que a obrigou a esmerar-se na preservação dos edifícios e a apostar na divulgação da gastronomia local. Não abundam restaurantes por aqui, mas O Solar dos Pachecos é um porto seguro para quem procura a clássica chanfana ou o cabrito assado em forno a lenha. Comida caseira, de digestão demorada, como se espera, com tempero apurado e genuíno que, apesar de tudo, não se esforça demasiado para agradar. Não faltam à mesa a broa de batata, o pão acabado de fazer e o queijo de cabra em homenagem ao receituário local - que em tempos também se dedicou à produção de medronho, agora praticamente extinta. Para comer e seguir caminho sem demora, a sandes de presunto e queijo é muitíssimo generosa, capaz de destronar qualquer outra que tenha provado até então.

Castelo Rodrigo
Faz parte da lista de Aldeias Históricas e foi objeto de uma profunda remodelação, na década de 90, que lhe devolveu o tom ocre que pinta as casas e o que resta do castelo, construídos em granito rosa, um material exclusivo da região Centro e que tem nesta pequena aldeia representante única em Portugal. Colada à vila de Figueira de Castelo Rodrigo, a aldeia divide as atenções de quem passa entre a paisagem desafogada para a planície e a simpática casa de chá que também serve de loja de artesanato local. Para comer, a Taverna da Matilde, na vila, é um dos raros restaurantes que lá vai sobrevivendo à pouca procura. Tem a particularidade de abrir as portas a meio da tarde, mas em função deste horário há muitos clientes que começam por lanchar e acabam por ficar jantar. Percebe-se porquê depois de se provar o queijo regional, os enchidos ou a sopa de Gravanços. O borrego da Marofa na brasa é um clássico da casa, bem como as alheiras com grelos, o javali estufado e o naco na pedra.

Monsaraz
Considerada um dos miradouros mais bonitos do Alentejo, já antes de 2002, quando foi criado o Grande Lago Alqueva, Monsaraz se gabava de ter uma panorâmica de sonho com prado a perder de vista. Desde então, o que se vê logo ali a banhar a aldeia é o maior lago artificial da Europa e isso, apesar de tudo, acrescentou-lhe ainda mais encanto. Bastariam já as casas impecavelmente caiadas, guardadas dentro da muralha que serviu como primeira linha de fronteira entre Portugal e Espanha, para eleger esta aldeia uma das mais bonitas do país, mas aqui, mais do que a arquitetura, o que torna Monsaraz especial é a sua gente, gente de fibra com os pés bem assentes na tradição e uma curiosidade urgente pelo que ainda está para vir. Terra de bons comeres e beberes (tem a maior cooperativa vitivinícola do país), tem um restaurante cuja vista para o Alqueva podia servir de postal ilustrado da região. Acolhedor e com boa cozinha regional, o restaurante Sabores de Monsaraz mantém-se no alto nas redondezas do Alqueva. A carta presta homenagem à saborosa gastronomia alentejana, com o borrego ou a carne de porco preto, as migas gatas com bacalhau e coentros e, nos doces, a encharcada e o arroz doce. Ótima garrafeira.

Rio de Onor
É uma das poucas aldeias em Portugal que se rege por um esquema comunitário tal como era antigamente, num regime que aplica a regra da partilha como fundamento básico da vida em sociedade. Partilha de fornos comunitários, de terrenos agrícolas e de pastoreado são os três pilares de funcionamento da aldeia de Rio de Onor que hoje, apesar da população envelhecida, ainda se mantém adepta deste modelo. O cumprimento de regras está adjudicado a uma Vara de Justiça, cujas coimas aplicadas são pagas em medidas de azeite ou vinho. A pouco mais de 30 minutos de Bragança, tem ainda a particularidade de ser cruzada a meio pela fronteira oficial que divide Portugal e Espanha, motivo pelo qual ambos lados da aldeia tenham um dialeto próprio muito semelhante ao mirandês. Em matéria de comida, predomina a gastronomia tradicional transmontana, com forte aposta nos enchidos, nas batatas, nas castanhas e na carne de caça. Para comer a sério, desça em direção a Aveleda e, quase no final do caminho, encontra o snack-bar O Careto, que acumula funções de casa de pasto e fumeiro tradicional. Serve petiscos variados e pratos confecionados em forno a lenha.

(Texto publicado no Expresso Diário de 14/09/2017)

Acompanhe o Boa Cama Boa Mesa no Facebook e no Instagram!