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Cafés com História ou a História do país contada ao balcão

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Diz-se que as melhores histórias acontecem à volta do vinho mas se nos permitem a ousadia, acrescentamos que a História se encarregou de provar que o néctar de Baco era só um exemplo para dizer que onde houvesse bebida, havia sempre qualquer coisa para contar

As memórias de Portugal, no caso, também se escreveram ao balcão, entre cafés, galões e chás das cinco. De Norte a Sul, conheça os cafés centenários que provam que a tradição dificilmente deixará de ser o que era.

Pastelaria Gomes
O interior da casa mãe, no centro de Vila Real, está praticamente intocado desde que abriu portas, há 92 anos, pelas mãos do casal Gomes. Primeiro foi a doçaria conventual de fabrico a ganhar fama fama mas entretanto começaram a surgir na cozinha outras iguarias regionais doces e salgadas que obrigaram o negócio a crescer. Hoje são, ao todo, quatro as Pastelarias Gomes O covilhete, uma espécie de empada, cuja massa era inicialmente feita com gordura de rim de porco, é motivo de romaria. É recheada com carne maronesa e sugere-se que seja comida ainda quente, a crepitar. Partilha a lista de especialidades com as cristas, os pitos de Santa Luzia, o toucinho do céu, a bola de carne e, na altura do Natal, com o clássico bolo rei.
Rua António de Azevedo 2, Vila Real. Tel: 259 309 711

Café Vianna
Tem mais anos de vida do que se podem contar e é um dos “monumentos” de visita obrigatória em Braga. A ocupar o edifício da Arcada, na Praça da República, é poiso habitual dos locais que ainda mantêm o hábito do pequeno-almoço e do lanche fora de casa, tanto quanto dos turistas que veem no Café Vianna uma parte das tradições e da própria História de Portugal. Está em funcionamento desde meados do século XIX e, no rescaldo da Primeira Grande Guerra, partilhou a atividade de pastelaria fina e chocolataria com a de banco popular, a propósito da falta de numerário que atrapalhava a vida comercial da cidade. Os trocos eram substituídos por senhas que depois se trocavam por artigos de mercearia e outros produtos de primeira necessidade. Serviu de sala de estar a Eça de Queiroz e Camilo Castelo Branco e foi nas suas salas com tetos altos e grandes janelas que se desenhou o Golpe de 28 de Maio de 1926, comandado pelo general Gomes da Costa, que levou à implantação da ditadura militar que, mais tarde, viria a ser transformada no Estado Novo. A esplanada é muitíssimo disputada ao fim de semana, mas vale a pena esperar por mesa. Para além das especialidades doces, que são muitas e ótimas, o bife à Vianna, mais do que digníssimo, é motivo para voltar e repetir.
Praça da República, Braga. Tel. 253 262 336

Café Milenário
Colado à Torre da Alfândega, no Largo do Toural, em Guimarães, onde se relembra, em letras garrafais, que foi ali, ali mesmo, que nasceu Portugal, abriu portas, em 1953, um café que se anunciava sítio de bom comer, bom beber e boas jogatanas de bilhar. O néon do Café Milenário que aliciava quem passava entretanto deixou de piscar, mas manteve-se a designação, infelizmente já rara de ver, de snack-bar, bem como a traça original do edifício - apesar das várias remodelações a que foi submetido e que acabaram por modernizar e, a certo ponto, descaracterizar a estética centenária. Ao longo de 60 anos foi ponto de encontro de tertúlias literárias e da elite cultural vimaranense e ainda hoje preserva essa vontade de juntar pessoas com concertos de jazz e recitais ao serão - a acústica é impressionante, muito por causa das paredes de pedra e janelas até ao teto. Com o tempo especializou-se em pequenos-almoços e refeições ligeiras e diz-se, sem cerimónia, que continua a servir o melhor galão e as melhores torradas da cidade.
Largo do Toural, Guimarães. Tel. 253 060 024

Café Guarany
Em 1933, quando abriu as portas em plena Avenida dos Aliados, a “hora do café”, que acontecia em dois turnos, logo a seguir ao almoço e ao jantar, era mais complicada do que o trânsito em hora de ponta. O público na grande maioria masculino, como mandavam os bons costumes da altura, muita conversa acesa, alguns murmúrios políticos, não houvesse bufos de orelha no ar, bom whiskey, bom café e estava feito o dia. Ao pequeno-almoço e à hora do chá, entravam as senhoras bem vestidas, de chapéu com plumas e a cheirar a pó de arroz, e debatiam-se os fait-divers da semana. Mudam-se os costumes, muda também a clientela mas não se muda a tradição e hoje o Guarany, que deve o nome ao índio esculpido na parede de mármore em homenagem à produção de café no Brasil, ainda detém o título do melhor pequeno almoço da cidade. Não é brunch, é mesmo aquela primeira refeição que se faz logo pela fresca e que, por aqui, já se adivinhava visionária em relação à intercalar de nome estrangeiro por incluir um menu completo com direito a ovos mexidos, carnes frias, croissants, sumo natural, chá e café, iogurte, flute de champanhe e um bife matinal. Sim, um naco de carne grelhada para aviar logo de manhã, que é de barriga cheia que se começa o dia, e uma dose de álcool borbulhante para acelerar a digestão. Em 2003 a gerência do Guarany passou para as mãos dos proprietários do Café Majestic, representante máximo da Arte Nova na Invicta e um clássico da História, e acrescentou ao espólio centenário do interior um mural colorido da autoria de Graças Morais.
Avenida dos Aliados Nº 89/85, Porto. Tel. 223 321 272

Café Santa Cruz
A instalação de um café-restaurante numa antiga igreja paroquial não foi propriamente pacífica. Mesmo depois de o espaço contíguo ao Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, ter sido dessacralizado e ter albergado uma loja de ferragens, uma estação de bombeiros e até uma esquadra da polícia, a população (especialmente a eclesiástica) não via com bons olhos a criação de um espaço de vício mesmo ao lado a um espaço de culto. A questão resolveu-se com uma alteração de fachada e em 1923 abria portas o café de estilo manuelino que, ainda gora, se mantém quase a mesma do dia da inauguração, à exceção de uma muito necessária remodelação, em 2002, que teve como único propósito enaltecer as características arquitetónicas do espaço, destacando o arco cruzeiro da antiga capela-mor. As cadeiras do Café Santa Cruz não são especialmente confortáveis - a falta de ergonomia é coisa antiga que se mantém -, mas sendo este um sítio de tradição onde seria pecado tocar no espólio que serve de mobília à casa, ainda hoje quem serve à mesa se apresenta de calças pretas vincadas, camisa branco e laço preto. Uma das especialidades da casa são os famosos crúzios, um exemplar da doçaria conventual típica da gastronomia da cidade, que geralmente acompanha um café ou um galão exemplares na forma, no serviço e no sabor. Fazendo justiça à vertente cultural, já que sempre serviu de sala de conversa e debate, promove noites de fado com entrada gratuita ao final da tarde, apresentações de livros e tertúlias literárias. A esplanada empoleirada sobre a Praça 8 de Maio é o sítio para estar e apreciar o movimento da Baixa de Coimbra.
Praça 8 de Maio, Coimbra. Tel. 239 833 617

Martinho da Arcada
Era o café de eleição de Fernando Pessoa e isso ainda hoje a mesa reservada diariamente para o escritor é motivo de atração. Seria, no entanto, desmérito assentar a história deste espaço bicentenário numa só personagem da História de Lisboa. É um facto que Fernando Pessoa fazia do Martinho da Arcada a sua segunda casa, mas com a passagem do tempo e consequente desaparecimento de Pessoa, a fama da casa tem-se construído pelo serviço rigoroso e boa comida. Iniciou atividade oficialmente em 1778 como botequim, dedicado exclusivamente à venda de espirituosas, mas exatamente porque se quis afastar do ambiente das tabernas mal afamadas da cidade, foi abrindo as portas ao serviço de refeições e atualmente domina ambas as funções de café e restaurante com igual dedicação e empenho. Situado por baixo da arcada nordeste do Terreiro do Paço, tem uma das esplanadas mais concorridas da Baixa Pombalina e um bife do lombo exímio. Os petiscos estão bem cotados na ementa, mas este é um sítio onde uma refeição a sério requer, pelo menos, duas travessas e comida à mesa, pelo que se sugere, antes da passagem à carne, uma paragem demorada nos camarões Tigre à Martinho. Tão frescos que ainda se lhes sente o sabor a mar.
Praça do Comércio, 3, Lisboa. Tel. 218 879 259

Café Calcinha
Esteve fechado para obras e reabriu em Abril deste ano empenhado em recuperar os sabores antigos do receituário típico de Loulé, no Algarve. O espaço do Café Calcinha, classificado como uma dos mais ricos exemplares da Belle Époque em Portugal, manteve-se fiel às origens na arquitetura e decoração sendo, por isso, uma memória viva dos tempos em que António Aleixo se sentava a escrever os seus folhetins satíricos. A estátua do escritor manteve-se como uma das peças centrais da decoração, bem como a madeira escura que cobre as paredes. Na ementa destacam-se os folhados de Loulé e a tradição da doçaria conventual, que aqui é representada sob a forma de um folhado (passe o pleonasmo) recheado com doce de ovos, polvilhado com açúcar e com uma massa leve e crocante na dose certa e dificílima de igualar.
Praça da República, Loulé. Tel. 964 066 842

(Texto publicado no Expresso Diário de 8/09/2017)

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