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Roteiro: Descobrir a Madeira à boleia da Natureza

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Levada das 25 fontes

Visit Madeira

Conhecer o que está em terra a partir do céu, subir a 500 metros de altitude e confirmar que há muito mais mar para além do que a vista alcança e conhecer uma vila de pescadores onde se come um dos melhores pratos de carne do Arquipélago. No fundo, ir sem planos para perceber que um dos sítios mais bonitos do mundo está apenas a 1h30 de distância de Lisboa.

Tradicionalmente, e assumindo a generalização fácil, há dois tipos de viajantes: os que se preparam com um ano de antecedência, agenda apertada com atividades a acontecer de meia em meia hora, e os que pura e simplesmente não planeiam coisa nenhuma. Na 1h30 de voo que separa Lisboa do Funchal, seja qual for o seu perfil de explorador, aconselhamos uma visita rápida ao caderninho onde tem apontadas as dicas que o cunhado enviou para ir ver aquele sítio escondido na floresta, confirmar se o restaurante que a prima do colega sugeriu ainda serve lapas ao domingo e, mais importante, se o tempo vai estar de feição e amigo da vida ao ar livre nos próximos dias - Madeira é sinónimo de natureza, pelo que tudo que obrigue a ficar retido debaixo de telha pode resultar em frustração.

À chegada à Madeira, a primeira ordem de trabalhos é munir-se de ténis confortáveis, impermeável, mochila, água e farnel. Vestido o equipamento oficial do arquipélago, pode seguir caminho.

Começamos devagarinho, com um passeio de jipe que, mais do que poupar as pernas a descidas e subidas vertiginosas, serve como mapa de reconhecimento do terreno, com a vantagem de revelar alguns dos tesouros mais belos da ilha e contacto privilegiado com a cultura madeirense. Com partida do Funchal, a viagem tem a duração de cerca de 7h00 e segue, primeiramente, em direção ao Rabaçal, no Paul da Serra, na Calheta, um lugar cuja definição de “mágico” é tão redutora como qualquer outra tentativa de descrição.

Em mais ou menos três horas e meia em todo o terreno, chega-se à Levada das 25 Fontes, que talvez seja o tal sítio que o cunhado se lembrou de sugerir, e onde se encontra uma das obras naturais mais magníficas do mundo - curiosamente criada por mão humana. Descendo a pé o trilho marcado com o número PR6, aí sim, vai dar de caras com a lagoa formada pelas águas que descem do Paul da Serra e as 25 fontes que a alimentam. Apetece mergulhar e é possível fazê-lo, mas não seria digno da nossa parte ocultarmos a lenda que diz quem entra nestas águas, jamais voltará à vida. Fica ao critério do leitor.

Em alternativa, e porque estará rodeado da vegetação que integra a floresta Laurissilva (classificada Património Mundial Natural da UNESCO em 1999), aproveite para conhecer a fauna e flora tropicais que por aqui abundam - para os entusiastas, a observação de aves (ou birdwatching) é uma das atividades mais procuradas e há diversos operadores com programas mais ou menos intensivos.

Entretanto, regresse ao jipe - não convém ficar para trás que a noite na floresta pode ser traiçoeira e cheia de terrores - e continue a viagem em direção a um merecido almoço num restaurante típico que será anunciado pelo guia no início da viagem. O passeio continua, agora fora da estrada, com passagem pela Ribeira Brava e pelo Cabo Girão. Este, que é o mais alto da Europa e o segundo mais alto do mundo, empoleira-se a 589 metros de altura para oferecer uma panorâmica rasgada da baía do Funchal. Bom, se tem vertigens talvez não seja uma boa ideia subir à plataforma de vidro suspensa, embora seja comum ver gente com pouco amor à vida a pendurar-se no corrimão para conseguir a “selfie” do ano. Prioridades, cada qual com as suas.

Câmara de Lobos, a vila de pescadores mais emblemática da ilha, assinala a última paragem, e é onde, curiosamente, uma das iguarias obrigatórias é a espetada regional (de carne!) com milho frito. Houve em tempos um “dentinho”, que entretanto foi proibido, que só se encontrava por aqui: as famosas “gatas”, que não sendo o que anunciavam, eram uma espécie de tubarão seco ao sol, servido frito ou em escabeche.

Neste dia que, por esta altura, já vai longo, recomenda-se que descanse para o dia seguinte, que também se adivinha recheado.

A visita ao Jardim Botânico é pouco aconselhada e não se sabe bem porquê, mas fica na lista que mais tarde vai partilhar com o cunhado, só para que ele saiba o que perdeu. Fica na Quinta do Bom Sucesso, a cerca de 4 quilómetros do centro do Funchal, e ocupa uma área de cerca de 80.000 metros quadrados. Plantas medicinais e aromáticas, plantas indígenas do arquipélago da Madeira, exemplares de plantas raras e ameaçadas de extinção, suculentas e uma vasta coleção de palmeiras são algumas das áreas que compõem este jardim, construído na década de 60 do século XX.

Agora, já imbuído pela natureza e suas maravilhas, ganhe asas e vá ver o mar a partir do céu, num voo de parapente que liga a Ponta da Calheta à praia da Madalena. A viagem tem a duração de 20 minutos e é acompanhada por um instrutor, estando, no entanto, sempre dependente das condições climatéricas.

Como o mais provável é voltar a pousar os pés no chão ainda com dificuldade (a adrenalina é tramada), o melhor é sentar-se um bocadinho e aproveitar o resto dia para não fazer nada, que é uma atividade que aconselhamos vivamente a experimentar no meio de uma vinha, com uma cesta de piquenique com as iguarias regionais e uma ou duas garrafas de vinho. As quintas produtoras de vinho organizam visitas à medida para casais, famílias e grupos, basta para isso decidir o que prefere: ver o pôr-do-sol, comer e beber ao sol ou só beber, que também é boa opção. E porque a vida não é só passeio e também merece festa em proporção igual, a partir de 27 de agosto até 10 de setembro celebra-se o vinho em mais uma edição da Festa do Vinho da Madeira.

(Texto publicado no Expresso Diário de 24/08/2017)

O Boa Cama Boa Mesa viajou até ao arquipélago da Madeira com o apoio da Associação de Promoção da Madeira.

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