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Pensão Amor: Alice e o restaurante secreto para “meretrizes” encartadas

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Pensão Amor

Fernando Mendes

Uma peça de teatro, que faz recuar até aos anos do Estado Novo, enquadra quem se atrever a entrar no universo das meretrizes do Cais do Sodré e aceder ao restaurante secreto para provar o menu “Fecha as pernas e abre a boca”

Até dia 10 de setembro, a Pensão Amor (não é um hotel, mas sim um bar), no Cais do Sodré convida os mais ousados a “um espetáculo intimista para maiores de 18, não recomendado a adultos sensíveis à crueza da realidade”. Trata-se de uma peça de teatro, a primeira de Roger Mor, e que conta com encenação e interpretação de Sofia de Portugal. “Alice no País dos Bordéis”, assim se titula a peça ajuda a recriar os idos de 1962, quando Salazar proíbe a prostituição, ordena o fecho dos bordéis e acaba com o estatuto das matriculadas em Portugal (o exercício da profissão era legal desde que a meretriz fizesse inspeções médicas semanais e tivesse a prova na sua cédula).

Ora, o Cais do Sodré, inlcuindo a Pensão Amor (Rua do Alecrim, 9, Lisboa. Tel. 962 650 101), que recupera esses tempos, era um dos centros mais ativos da “mais velha profissão do mundo”. É este o contexto, antigo e atual, para o início de “Alice no País dos Bordéis” (€6), com sessões, de terça-feira a sábado, às 19h00, 19h30 (em inglês), 20h00 (em inglês, com jantar), 21h00 (com jantar) e 21h30. Antes de a peça começar e de Alice, a “Louca” entrar em cena (aleatoriamente, pode ser substituída por Francisco Beatriz), todos recebem, devidamente personalizado, o seu “Livrete Sanitário”, que atesta ser o espectador, uma “meretriz” encartada, logo com acesso aos segredos da Pensão Amor. É também este documento, acrescido de €69, que permite uma segunda experiência, no restaurante secreto da pensão: um menu de degustação, a propósito batizado de “Fecha as pernas e abre a boca”. Obviamente, que o preço referido não é inocente, nem os nomes dos pratos ou momentos do jantar.

Na penumbra do restaurante secreto da Pensão Amor manda o chefe Guilherme Spalk, um jovem português que preferiu calcorrear mundo em busca de saberes e sabores, antes de se inteirar dos segredos da nossa cozinha tradicional. O resultado está à vista no menu desenhado que, a propósito, é servido em loiça única, fabricada nas Caldas da Rainha (nada de sorrisos marotos, por favor), complementada por diversas peças vintage. Não existem mesas, antes um balcão, com vista para o trabalho da equipa de cozinha que, por sua vez, também interage com o público (no máximo oito pessoas), ao sabor das explicações e da maior ou menor timidez de quem tem de “fechar as pernas e abrir a boca”.

O menu servido no restaurante secreto da Pensão Amor é desenvolvido em oito momentos, batizados de acordo com ambiente que se recria, com os participantes ou “botõezinhos” (como são tratados logo que a peça começa). E, até os vinhos servidos confirmam toda a encenação pensada para esta experiência gastronómica.

Assim, nada melhor do que surpreender logo a partir do primeiro momento, ou seja, dos “Preliminares”, com o couvert a ser servido como se fosse um kit de maquilhagem: Paté de mexilhão, num batom, Queijo de Azeitão, num boião de creme, e as manteigas, de pinhão e de açafrão, na caixa do blush. Com a curiosidade ao rubro, chega o “Despertar dos Sentidos”, em estilo 3 em 1, com Foie gras, chocolate negro e uva; Ceviche de corvina, broa, creme de batata-doce e Churro de queijo da Ilha e alecrim. Serve-se, depois, uma Beringela frita, com miso e açúcar amarelo, até se desembocar no “Fogo da Paixão”, um elegante Sashimi de atum, decorado com ruibarbo e cenoura, servido num falso espelho de mão e regado com “sangue de boi” (é preciso assistir à peça para perceber a ligação, mas também se tudo for escrito, a experiência perde parte do seu encanto!). Fácil de entender é a ligação entre o “Beijo Francês”, mais conhecido nestas andanças por “Frech Kiss”, com o Linguado e a ostra fumada.

Com muitos risos, chega o prato “Boca Naquilo”, uma exótica sopa miso com cebola, gema de ovo, cogumelo, couve lombardo e rebento de soja. Já com o “Mau Feitio”, no copo, um tinto invulgar do Douro, sucumbe-se ao “Desejo Carnal”, com alguma luxúria na carne escolhida: faisão, servido com amêndoa torrada. Segue-se um dos momentos que maior burburinho gera entre os “botõezinhos”, ao ser pedido que se use uma venda e que se estique o braço com a palma da mão virada para cima. Neste momento, chamado de “Aquilo na Mão”, a equipa de cozinha coloca, à vez, amora, figo e morango, com várias texturas e temperaturas. Antes do prometido “Orgasmo”, a verdadeira sobremesa, que é corolário da experiência, em que nem nuvens faltam, é servido um atrevido Leite de coco, rum e lima.

No final do jantar, no restaurante secreto da Pensão Amor, os participantes recebem o respetivo carimbo no “Livrete Sanitário”, em que consta uma boa notícia: “A Meretriz passou com distinção”, nas provas, que eram, afinal, os vários momentos do menu.

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