Boa Cama, Boa Mesa

Siga-nos

Perfil

Perfil

Boa Vida

O que é que Salema tem? Tudo e nada...

  • 333

Entre Lagos e Sagres existe um pequeno tesouro por descobrir. A sua beleza e tranquilidade já começaram a cativar alguns grupos hoteleiros.

Longe vão os tempos em que do alto da estrada municipal se podia apreciar o areal e as cores claras do mar. Ainda assim, a Salema continua a ser um pequeno tesouro algarvio, resguardado das multidões, onde se encontra tudo e nada. Explique-se. Para quem procura uma praia calma, numa aldeia tranquila, para usufruir do melhor que o mar tem para oferecer (e nem só de banhos se escreve...), a Salema tem tudo. E tem tudo, porque tem quase nada. Não tem restaurantes de referência premiados. Não tem bares barulhentos e muito menos discotecas. Não tem enchentes, excetuando agosto. Não tem barulhentas motos de água, e os barcos que se fazem ao mar, são de pescadores (mas esta é uma boa causa, além de fresca e saborosa). E, verdade seja assumida, não tem águas cálidas. Mas, em contrapartida, tem um mar transparente, como poucos, com diversos tons de azul, que convidam a mergulhos de descoberta.

Na maré vazia, a Salema cresce e permite avançar, pelo areal, até às vizinhas praias da Boca do Rio (para nascente) e da Santa (para poente). É a caminho desta última que poderá apreciar, nas arribas, mais um pequeno segredo da Salema: pegadas de dinossauros bípedes carnívoros, que povoaram esta região há mais de 140 milhões de anos. Esta parece ser a boa sina da Salema, preservar o melhor que uma localidade piscatória tem para oferecer, graças, igualmente, ao facto de estar inserida no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

Apesar de alguma divulgação internacional - a praia foi recentemente eleita como uma das 50 melhores do mundo pelo jornal britânico "The Guardian", ocupando a 15ª posição e recomendada para famílias -, a verdade é que a Salema continua a ser uma pequena vila, onde todos se conhecem e onde todos os forasteiros, nacionais ou estrangeiros, são tratados da mesma forma afável e sempre bem--disposta. A praia com a sua ondulação suave e extenso areal, onde a chegada das pequenas embarcações dos pescadores é saudada por todos, oferece todas as comodidades, com duas áreas concessionadas e as garantias inerentes à Bandeira Azul hasteada.

A construção, ao contrário de muitas outras praias algarvias, foi condicionada (existe essencialmente do lado poente) o que permitiu salvaguardar a zona mais próxima do mar, mantendo-se um passeio junto ao areal, uma pequena lota e as ruelas estreitas, que lhe conferem a beleza pitoresca, por todos elogiada. Mantém-se também ativo o Clube Recreativo Praia da Salema, com os seus matraquilhos com vista para o mar. A Rua dos Pescadores é o fio condutor de toda esta zona mais antiga, de casas estreitas de dois pisos, todas batizadas, como se cada nome fosse um símbolo de afirmação e orgulho por parte da população.

A partir desta rua encontra desde logo dois dos locais mais emblemáticos da terra, também símbolos da Salema atual, em que todos são bem-vindos: os restaurantes Bóia e Casa Pizza. O primeiro, virado para o mar, com várias esplanadas, assume a sua ligação ao mar e apresenta diariamente o peixe mais fresco para grelhar, além de umas excelentes lulas fritas (como manda a tradição). "Aqui, é tudo feito na hora", garantem, e cumprem com uma simpatia que não distingue nacionalidades. Nas traseiras, o Casa Pizza, com uma sala aberta no primeiro piso e uma invejável vista para a praia, é uma inesperada fusão entre uma "clássica" pizaria e um restaurante grego, graças a um casal que aqui encontrou o seu paraíso. Em forno a lenha, as pizzas e as lasanhas partilham o espaço com uma dourada fresca, com uma moussaka (prato grego, com carne, beringela, queijo e molho bechamel) ou com uns memoráveis tomates e pimentos recheados, também de influência mediterrânica. A abrangência gastronómica é de tal forma que a ementa também apresenta a típica caldeirada e um tentador estufado de coelho.

Do lado oposto da praia, e com uma excelente esplanada e zona lounge, o restaurante Atlântico, uma antiga casa de férias, também marca pontos com a oferta piscícola. É já a sair do coração da aldeia, em direção a nascente, que se encontra a maior pérola da restauração da Salema, caprichosamente cortada ao meio pela estrada: O Lourenço - A Casa do Peixe. Trata-se de um pequeno restaurante, com uma vintena de lugares, que faz gala da sua oferta petisqueira e da qualidade da cozinha de terra e mar. A farta sopa de peixe é obrigatória, bem como as lulinhas e os camarões fritos com piripíri. Para pratos principais, o sr. Lourenço faz questão de atravessar a estrada e mostrar os peixes do dia, sem demérito para o arroz de mexilhão, a quem se instala na concorrida esplanada. O ambiente familiar e a confiança de quem trabalha são as melhores garantias desta casa que serve ainda, por encomenda, cataplana de polvo com batata-doce, corvina no forno e javali estufado, entre outros pratos de substância. Para os mais novos, a Pizzaria-Bar Pizza Mobile é local obrigatório. Para uma noite (um pouco) mais animada pode sempre contar com o Gin & Cocktail Bar A Tábua. Se durante o passeio pela Salema se deparar com uma rulote com ar abandonado, sorria. Aqui, vende-se o famoso pão de Budens.

É por tudo isto ou por pouco mais do que isto que a Salema cativou a atenção de um dos mais exclusivos resorts portugueses. Existem razões pessoais, mas o Vila Vita Parc (baseado no concelho de Lagoa e com um restaurante premiado internacionalmente) disponibiliza aqui a sua "Collection" de casas de luxo. A mais pequena, "Estrela do Mar", tem acesso direto à praia e é constituída por duas pequenas casas de pescadores, separadas por uma ruela, mas originalmente unidas por um passadiço de acrílico no primeiro piso. A decoração, com muitos motivos náuticos, remete para os anos 60, com a madeira e os tons azuis a marcarem o espaço, que pode receber até cinco pessoas. Os valores diários oscilam entre €250 e €550. Originalmente, esta era uma casa de verão da família Pohl, proprietária do resort, que "sempre adorou o Algarve, o que é bem evidente", esclarece Katya Bauval, que prefere não falar nos valores investidos neste projeto, avançando apenas que "muito em breve vão estar disponíveis mais duas villas". Atualmente, no alto da arriba, do lado poente da Salema, o Vila Vita Parc já conta com duas outras casas de arquitetura moderna, transformadas em locais de requinte, com uma decoração envolvente, uma vista de cortar a respiração e todas as comodidades dos tempos modernos. Casas de sonho, batizadas de Villa Mar Azul (até 16 pessoas) e Villa Mar à Vista (até 12 pessoas), com piscina privada, várias zonas exteriores e um design contemporâneo, que podem ser alugadas (em época alta, o mínimo são sete noites) por valores entre €350 e €1200, por dia. "A maior parte das famílias que alugam estas casas não sai daqui. Preferem a tranquilidade, a privacidade e a vista e nem sequer pisam a areia da praia", explica um dos responsáveis pelo projeto.

A pouca distância, outro grupo hoteleiro também se deixou enamorar pelas qualidades desta zona. O Salema Beach Village, do grupo Nau Hotels & Resorts dispõe de 114 moradias V2 e V3, de decoração contemporânea, com terraço e jardim, e um piscina comum, indicadas para o segmento de famílias e que podem ser alugadas em regime de self catering, com transporte para a praia nos meses de verão. "As reservas para a unidade tiveram início em março deste ano e estão a decorrer a bom ritmo, sendo também de salientar o elevado grau de satisfação dos clientes que já tiveram a oportunidade de beneficiar das mais--valias da unidade. Além dos clientes nacionais, o Salema Beach Village tem captado o interesse em mercados como o britânico, holandês, espanhol e alemão", afirma Mário Ferreira, CEO do grupo hoteleiro. Os preços, indicativos, variam entre €100, por noite, para uma ocupação máxima de cinco pessoas e €375 para uma moradia V3, em agosto.

Na Salema, de tudo e de nada, apenas um facto continua por explicar: a razão da existência de tantos gatos nesta vila piscatória. De tal forma que os restaurantes já colocam cartazes a pedir para que não se alimentem os felinos da Salema.

*Artigo publicado na Revista E no dia 2 de julho de 2016