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Restaurante Pesca: Diogo Noronha, o mar e a portugalidade

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NUNO CORREIA

Vive-se o ambiente de bairro, há um terraço e roupa estendida nas varandas por companhia. E há também a criatividade de um dos mais promissores chefes nacionais do momento

Há qualquer coisa de extremamente nacional, uma espécie de portugalidade escondida, no Restaurante Pesca, o novo projeto de Diogo Noronha, em pleno Bairro Alto em Lisboa. Não há dúvida que o chão a imitar os soalhos antigos das tabernas de bairro e o balcão corrido em tons escuros ajudam a compor esta ideia. O pátio, onde funciona parte da sala de refeição nas traseiras, prolonga ainda mais esta imagem, rodeado de varandas quase que íntimas com roupa estendida ao sol e plantas cuidadas em pequenos vasos.



A janela para a Rua da Escola Politécnica, dentro do bar, ajuda a dar um ar bairrista ao Restaurante Pesca. Abre a casa ao exterior e acaba por ser um ponto de contacto e até um cartão-de-visita do espaço, funcionando como balcão para um aperitivo antes de cruzar a porta. Dá também a oportunidade de conhecer Fernão Gonçalves, o génio criativo por detrás do shaker e das ostras, que não se limitou a abrir garrafas e foi à cozinha buscar pimentos, cenouras e ervilhas para os cocktails de autor.

O toque diferenciador do Restaurante Pesca começa logo, como se percebe, no balcão da entrada. As Ostras servem de entrada, servidas “ao natural” (€3), com “com pérolas de mirin, molho soja e coentros” (€4), “com àgua de pepino, limão confi e salicórnea” (€4) ou “com foie gras, beterraba e pimenta sechuan”. Um deleite visual qualquer das propostas, perfeitas se harmonizadas, por exemplo, com uma “margarita com sal de algas”, que leva tequila olmeca altos plata, licor dry curaçao e xarope de agave (€10), ou com o fenomenal “zombie mexicano com pimentos e malagueta”, uma sábia mistura de Fernão Gonçalves de mezcal del maguey vida e tequila ocho silver (€14).



Na hora de entrar pela sala, é impossível deixar de observar a harmonia em que a cozinha se move, com Diogo Noronha no comando. Nélio Mendes, subchefe e braço direito, com Claiton Ferreira à frente da pastelaria, são extensões do próprio chefe, as faces mais visíveis deste projeto que prima pelo atrevimento e pela criatividade. Mal chega a ementa, salta à vista, além da extensão natural da tal portugalidade de que já se falou, todo um conceito baseado na sustentabilidade e nas raízes do chefe, que foi vegetariano e vegan durante vários anos, e que decidiu neste projeto mais do que apregoar, aplicar uma filosofia e um estilo de vida sustentável e amigo do ambiente. Rodeou-se de uma mão cheia de pequenos produtores que garantem, para a primeira carta que apresenta, mais do que produtos frescos, a forma perfeita de complementar a ideia e a conceção de ementa do chefe. Um trabalho conseguido depois de muitas conversas soltas, experiências várias e ajustes diversos.



A carta do Restaurante Pesca apresenta sete entradas, oito pratos principais e cinco sobremesas. Na visita do Boa Cama Boa Mesa o almoço começou com uma “ostra panada” com um escabeche tépido do mar, migas de morcela da Guarda, rábanos, cenoura e laranja confitada (€17) e com “atum rabilho e cecina”, que acompanha com madalena de pinhão, cebolas novas em pickle e wasabi em folha. Os pratos principais provados foram o “arroz de lavagante”, com trigo-sarraceno tostado, ervas frescas e ervas da Ria Formosa (€49) e o quase indescritível “pregado na brasa” que leva cogumelos silvestres, batata nova, geleia de sementes de mostarda, patissons e óleo de argan (€37) uma verdadeira e inusitada surpresa. Tal como foi o “arroz do Sado doce” com puré e confitura de limão e sorbet de coco (€9).



Com apenas 18 lugares na sala interior e outros 32 no exterior, o Restaurante Pesca (Rua da Escola Politécnica, 27, Lisboa. Tel. 213 460 633), assume-se como um ambicioso projeto e o palco perfeito para que Diogo Noronha volte a conquistar Lisboa. A carta criativa que apresenta justifica mais do que uma visita.

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