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Cozinhas do Mundo: O Médio Oriente à mesa em Lisboa

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Síria, Líbano, Israel, Irão e Turquia. Não dava para uma volta ao mundo, mas já seria uma viagem bem proveitosa pelo Médio Oriente. Com a vantagem de só ter de entrar em seis restaurantes de Lisboa

Demos a volta à cidade de Lisboa numa prova gastronómica exótica e quase sempre com nomes de pratos impronunciáveis para chegarmos ao fim com a certeza de que a cozinha do Médio Oriente é bem capaz de ser uma das mais ricas e variadas do mundo. Pode prová-la, com as devidas variações, em seis restaurantes. No caso, sem sair de Lisboa.

Mezze - Cozinha do Médio Oriente
Abriu na terça-feira e é desde há coisa de um ano, quando começou o burburinho acerca do que viria a ser, um dos restaurantes mais aguardados em Lisboa. Não tem chefes famosos, degustações de centenas de euros, garrafeira premium nem sequer a pretensão de ser mais do que é: um espaço de partilha à mesa. O Mezze, pode-se dizer sem cerimónia, é o final feliz de uma história que podia ter corrido mal, uma daquelas histórias que se veem nos filmes, a uma distância que parece segura, e que nos parecem irreais e distantes até ao momento em que nos batem à porta. Os protagonistas vieram de longe, da Síria, de onde fugiram de uma guerra que teima em empurrar milhares de pessoas para fora do país, e encontraram em Lisboa um poiso seguro. Depois do sucesso dos jantares sírios no Mercado de Santa Clara, organizados pela “Pão a pão – Projeto de Integração de Refugiados”, o passo seguinte seria sempre abrir um restaurante a sério, com horário na porta, ementa fixa e caixa registadora. Assim aconteceu, finalmente, na terça-feira, no Mercado de Arroios que, desde então, se tornou o projeto de vida de um grupo de sobreviventes sírios - é consciente, neste texto, a rejeição do termo “refugiados” por recearmos a sua definição publicitária e que, de certo modo, remete para uma efemeridade que aqui não se aplica.
Ao comando da cozinha, mãe e duas filhas começam por explicar que uma das bases da cozinha oriental é a mesa farta - olha que bom, que nós por cá partilhamos da mesma mania -, com pratos e pratinhos e muita variedade para ir picando. Assim, a ementa divide-se em seis variedades de Mezze (petiscos), que podem incluir húmus, baba ganoush (puré de beringela), salada de salsa, bulgur e hortelã, pão sírio, falafel, sopa de lentilhas, empadas de carne ou espinafres, espetadas de borrego e arroz fumado de pimentos (desde €11). Cada um dos elementos pode ser pedido individualmente, à carta, e levado para casa, se for essa a vontade. Nas sobremesas, não incluídas nos mezze, as minipanquecas com creme de natas (€3,50) obrigam a pensar se realmente o que temos andado a comer ao pequeno-almoço merece partilhar o nome com uma coisa tão boa. Experimente e diga de sua justiça.
Mercado de Arroios, Rua Ângela Pinto, 12, Lisboa

Muito BEY
Se ao acrónimo do Aeroporto de Beirute (BEY) se juntar a expressão portuguesa “muito bem”, tem-se um pedaço do Líbano em Lisboa. Foi o que fez Ezzat Ellaz quando pensou no nome para o seu restaurante na capital. Cosmopolita e acolhedor, como são vários na sua terra natal, foi pensado para criar laços entre cá e lá. Confortável com o seu percurso na área da restauração, que já o fez correr a Arábia Saudita, o Dubai e o Kuwait, e apoiado por Barbara Massaad, chefe e autora libanesa do projeto Soup for Syria, decidiu avançar com um espaço em Lisboa que defende a tradição da partilha à mesa. Da carta do Muito Bey destacam-se vários mezze (petiscos) como o húmus de grão, o mutabal de beringela, carne picada ou cogumelos, que acompanham com o manuché, o pão achatado típico do Líbano. Para abrir o apetite, o falafel e as almôndegas panadas de iogurte (€7,50) são boas opções. Mais a sério, o trio de espetadas carne picada de vaca e borrego e de peito de frango (€17,50) são a escolha ideal para ficar com uma ideia das especialidades do país. Termina-se com o incontornável café branco libanês, aromatizado com umas gotas de água de flor de laranjeira. Se estiver com tempo, espreite a carta de cocktails - o White Beirut, com gin, sumo de limão, clara de ovo e Sumac (€9) adivinha-se muito boa companhia.
Rua da Moeda, 4 A, Lisboa. Tel. 211 580 788

Tantura
Este restaurante conta uma história de amor a dois tempos. A do casal Elad Bodenstein e Itamar Eliyahuo, israelitas que vieram a Lisboa passar a lua-de-mel e que, inevitavelmente caíram de queixo pela cidade. Tanto e de forma tão arrebatadora que não tardou muito em decidirem que era cá que queriam ficar. O amor tem esta capacidade de nos atirar para o desconhecido sem rede de segurança, de nos fazer arriscar e acreditar que vai correr tudo bem. E geralmente, o amor costuma vencer. Foi o caso no caso do restaurante Tantura, que trouxe para o Bairro Alto um cheirinho a casa e, sobretudo, da vila (com o mesmo nome) onde viviam. Importa, antes de mais, esclarecer que Israel não tem gastronomia tradicional e que, por isso, aqueles que são apontados como pratos típicos do país resultam, na verdade, de uma amálgama de sabores importados das nações vizinhas. A carta do Tantura é fiel a essa mistura e talvez por isso tenha preferido adotar a designação “de influência mediterrânica”, mais segura e que não defrauda. No entanto, o que chega à mesa traz mais das cozinha do Médio Oriente e magrebina do que de qualquer outra. Para começar, não há como fugir dos clássicos shakshuka, que são, no fundo, um nome complicado atribuído a uma dupla de ovos estrelados com molho de tomate, ervas e pão de cerveja, que pode incluir carne ou vegetais (a partir de €7,8). De seguida, há que passar pelo falafel com molho de pasta de sésamo e pelo pastel de cebola e grão-de-bico (desde €2,90) - obrigatórios. E o húmus, que não é um húmus qualquer porque pode ser servido a solo ou acompanhado de beringela e ovo escalfado (€7,25) ou almôndegas (€8,25). Antes de encerrar, já depois de se ter aventurado numa pita recheada com a tal shakshuka ou com frango panado, o bolo de sêmola e água de rosas (€3,50) é imperdível.
Rua do Trombeta, 1 D, Lisboa. Tel. 308 809 270

Dervixe
Foi o primeiro restaurante a trazer a Turquia para Lisboa e apesar de já não ser novidade (nem o único a dedicar-se à causa), continua a ser o grande bastião da cultura e gastronomia turcas na cidade. Murat Taspinar chegou a Portugal há praticamente uma década e quando abriu o Dervixe, em 2011, comprometeu-se a respeitar o mais fielmente possível os costumes da sua terra natal onde as leis pró-islamistas restringem fortemente a venda de álcool. Por cá, ajustou-se o conceito à realidade da cidade e embora a carta se mantenha firme na ausência de espirituosas, os clientes podem trazer o próprio vinho, cerveja e o que mais lhes aprouver para regar a refeição. Cada um sabe de si e quem se portar mal, é convidado a sair. À mesa, a acrescentar ao natural prazer da gula, também se fuma narguilé, adivinha-se o futuro no fundo de uma chávena de chá e participa-se de jogos populares turcos. Mas como estamos cá para comer, vamos ao que realmente interessa. Ao almoço, as opções recaem essencialmente nos tradicionais Doner Kebab ou falafel, em pão pita ou wrap (a partir de €4), com outras opções à carta que se estendem também ao jantar. Há pratos à base de Kebab de vaca e peru, que pode ser em versão de espetada de carne moída, desfiado e acompanhado de pão frito e em bitoque, que junta a isto tudo um ovo a cavalo, arroz, salada e batata frita. A Moussaka, carne de vaca picada com beringela e bechamel, cozinhada no forno em prato de barro, é um dos pratos estrela do restaurante e aquele que reúne mais consenso na hora de escolher, mas já diz o ditado que a sorte protege os audazes e por isso aconselhamos o leitor a alargar a experiência a tudo o que pareça radicalmente diferente daquilo a que está habituado. A probabilidade de correr bem, aqui, é quase garantida. Se for esse o caso, a opção de pratos vegetarianos é bastante sedutora, especialmente na parte que destaca os pastéis de courgette (€8) e a pizza turca com espinafres e queijo turco (€8) - nada, mas rigorosamente nada parecida com a italiana. Para terminar, é provável que se sinta tentado pela baklava, ótima por sinal, mas se a ideia é sair da zona de conforto, arrisque no tavuk gogsu, que é só uma maneira complicada de designar um leite-creme (€3).
Avenida 24 de Julho, 84 A, Lisboa. Tel. 218 095 031

Rose - Iranian Restaurant
O cérebro humano é capaz das maroscas mais elaboradas, de nos atraiçoar na verticalidade e abertura de espírito que julgamos ter, de nos revelar piores pessoas do que na verdade acreditamos ser. No Rose - Restaurante Iraniano, tudo o que foi descrito acima aconteceu em catadupa e só não nos deixou mais envergonhados porque, felizmente, foi um processo interno e silencioso. A caminho do restaurante idealizámos um espaço tradicional, numa onda talvez a cair para o “oriental chic”, com loiças pintadas à mão, candeeiros de ferro, sofás e mesas rebaixadas e muita madeira. Entrámos e só na sala de jantar sóbria e moderna, percebemos que erramos redondamente. Tanto quanto um alguém que espera que uma tasca portuguesa em Shoreditch tenha xailes de Viana na parede, velhotes ao balcão a beber bagaço e senhoras com buço a servir à mesa. No Rose, a única referência ao Irão está onde deve estar: na ementa que, em bom rigor, é de inspiração persa. Abrimos aqui um parêntesis para revelar mais um equilibrismo cerebral que tivemos de fazer quando tentámos encaixar o requinte do espaço com uma carta ilustrada com fotografias. Ok, assim fica mais fácil identificar os pratos, foi assim que nos convencemos a aceitar o facto. Nas entradas, a sopa iraniana com cevada, leite, legumes e frango (€2,50) é bom aconchego para o que vem a seguir. O chelo kabab, sendo o prato típico por unanimidade da cozinha iraniana consiste num filete de carne de Kebab acompanhada de arroz e tomate grelhado. Há de bovino e de cordeiro e ainda uma mistura das duas (€7,50). Para algo completamente diferente, vale a pena provar o ghalieh mahi, um ensopado de salmão famoso no sul do Irão (€12) e terminar o festim com o shole zard, o pudim de açafrão aromatizado com água de rosas (€3,50).
Avenida Duque de Loulé, 22 B, Lisboa. Tel. 218 045 225

Fenícios
Quando se fala em cozinha mediterrânica, quase sempre (e erradamente) se deixam de fora as cozinhas de tradição oriental - como se o mar, esse vendido, fosse propriedade exclusiva de um grupo restrito de países (curiosamente os mais ocidentais). Pois que o Líbano, entre mais uns quantos vizinhos, também lá está mesmo junto à costa e a beber da mesma inspiração que os restantes. Felizmente para os lisboetas, existe o restaurante Fenícios, pioneiro na capital no que aos sabores libaneses diz respeito, e um dos mais antigos representantes da verdadeira gastronomia local. As refeições adotam normalmente o estilo Mezze, em que uma variedade de pratos frios e quentes é servida à disposição do cliente. Uma mezza típica, por exemplo, consiste em salada Tabbouleh, Húmus, Kibbé (um pastel de bulgur que pode ser recheado com carne ou vegetais), batatas picantes salteadas em alho e coentros e uma seleção variada de espetadas. Cada um dos pratos pode ser pedido individualmente mas tem sempre mais graça ver a mesa cheia e ir picando daqui e dali. O kafta khoush khash dejaj (€11,90), com frango picante, molho de tomate e batatas picantes faz justiça à descrição e pode ser perigoso para quem não se aguenta com refeições picantes. Assim sendo, opte pela carne de vaca com grão, alho e pão tostado (€10,90). Seja qual for o caso, não saia antes da knéfé bel jebné, vulgarmente conhecida como tarte de semolina recheada com queijo derretido (€3,50).
Rua do Conde de Redondo 141, Lisboa. Tel. 212 448 703

(Texto publicado no Expresso Diário de 21/09/2017)

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