Boa Cama, Boa Mesa

Siga-nos

Perfil

Perfil

Boa Mesa

Marisqueira O Fialho: Toda a Ria Formosa à mesa

  • 333

Marisqueira Fialho

Peixe e marisco da costa, alguns exclusivos da Ria Formosa e um espaço, a que se insiste chamar marisqueira, onde a falta de cerimónia e a mão certeira na cozinha fazem, em partes iguais, o ADN desta casa

Três dias na zona de Tavira e zero ostras comidas. Nem uma! Sai-se de Lisboa de dentes afiados, já preparado para o queixo babado de água do mar… e nada. Um porta a porta exaustivo pelos restaurantes da cidade permitiu concluir, ao final de 4 horas de muita fome e calor abrasador que, afinal, e apesar de estarmos no epicentro do Parque Natural da Ria Formosa, bichinhos de casca só amêijoas e conquilhas. Nada contra. Mas, o desejo, aqui, chamava-se... ostras.

Mensagens para cá e para lá com os amigos da terra, “vai ali, tem de certeza” ou “tenta este que nunca falha”, um telefonema para o Casa Velha, em Cacela, e sempre a mesma resposta: "hoje já não há e amanhã logo vemos..." Bom, aquele grupo de pescadores a chegar da faina há-de conhecer aí algum cantinho, pode ser clandestino, que nos mate a fome. Afinal parece que também não é por aqui que nos safamos. “Ah, desde que os turistas invadiram isto que é difícil encontrar. Como eles não comem essas coisas, já ninguém quer saber”. Talvez tenha sido a mesma “invasão” que obrigou a maioria dos restaurantes de Tavira a virarem-se mais para o hambúrguer e a rejeitar deliberadamente a gastronomia local. Assim seja. Não saímos daqui sem ostras, isso é certo. Nem que leve uma semana. Mensagem para o chefe, resposta certeira - já devia saber - com uma sugestão infalível e uma nota de rodapé: “vais amar!”.

A marisqueira O Fialho, que na verdade não tem marisqueira no nome, é um daqueles restaurantes que lamentamos não ter conhecido antes e que, mesmo assim, não queremos que muita gente conheça, não vá um dia a grelha transformar-se em placa de hambúrgueres. Mesmo em cima da Ria Formosa, na pequena localidade de Luz de Tavira e junto a um bairro residencial, não é um espaço que se esforce muito por agradar com questões alheias à comida. Quem vem, vem para comer e o resto não interessa nada. Na marisqueira O Fialho (EM1339, 1090 E, Luz de Tavira. Tel. 281 961 222) há três escolhas possíveis de mesa: na sala interior, com ar condicionado, na de fora, que é uma espécie de terraço improvisado com teto de canas e mesas corridas que se separam à medida da clientela, e a esplanada. Chamamos-lhe assim por se tratar de um conjunto de mesas e cadeiras colocadas ao ar livre, neste caso numa ilhota de areia que se forma na ria. É só atravessar a estrada e ocupar um lugar, alguém há-de aparecer para tratar dos pedidos.

A carta é extensa e essencialmente dedicada aos peixes e mariscos locais. Tudo aquilo que procurámos, em vão, na cidade, encontrámos aqui a um preço que permitiu algumas extravagâncias com as especialidades da casa. Como o Arroz de lingueirão demora cerca de meia hora a preparar, dá tempo para entreter. Venham de lá essas ostras e pode ser já meia dúzia que somos pessoas de alimento e andamos a sonhar com este momento há quase uma semana. Grandes, gordas e suculentas, como se quer, e tão frescas que quase (quase) dá pena engoli-las assim de um trago. Um euro cada ostra e uma satisfação tremenda que por pouco não nos fez desistir do que já tinha sido pedido na cozinha.

Para começar, Peixe-rei frito (€7,50) a lembrar que nem só de jaquinzinhos se faz bom petisco para comer à mão. Da vitrine logo à entrada vieram as Barrigas de atum (preço ao Kg.), uma dose de Conquilhas e outra de Navalhas, mesmo a tempo da panela de barro aterrar na mesa, com uma dose de Arroz de lingueirão para dois (€28), que serve bem para quatro ou cinco. Isto tudo somado a uma garrafa de Planalto não deixou espaço para os doces, pelo que a Torta de alfarroba (€3,50) que nos tinha piscado o olho da mesa do lado teve de ser substituída por uma aguardente de medronho. Voltámos da marisqueira O Fialho para o hotel a pé. Em linha reta não tem nada que enganar.

Durante o verão, convém fazer reserva com pelo menos dois dias de antecedência. É isso ou ficar na “esplanada”, mas a mosquitagem que por lá paira não permite desfrutar plenamente nem da paisagem nem do repasto.

Acompanhe o Boa Cama Boa Mesa no Facebook e no Instagram!