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À mesa com José Quitério: Restaurante Cova Funda

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Por José Quitério (www.expresso.pt)

 

Subindo a Avenida Almirante Reis, atravessa-se a Alameda D. Afonso Henriques e logo a seguir, primeira à direita, é a Rua Augusto Machado. Chama-se a este conjunto habitacional, que se prolonga a sul da alameda, Bairro dos Actores. Prédios de amável feição dos anos 30 do século passado, construídos no âmbito da moderna urbanização da zona levada a cabo por Duarte Pacheco e seus arquitectos. Não só actores (e bem distantes) dão nome às ruas, pois também se encontram toponimificados, por exemplo, o arquitecto pombalino Carlos Mardel, o economista José Acúrsio das Neves (1766-1834) e o cientista (e personagem de Alexandre Dumas) Abade de Faria. O próprio Augusto Machado (1845-1924) não foi actor, mas sim compositor de óperas e operetas. Penetremos na sua rua até ao nº 3-A/B, onde mora o restaurante Cova Funda.

 

Como estabelecimentos onde se vendiam principalmente vinhos comuns e aguardentes para consumo no local, fora de refeições certas que nelas fossem preparadas e servidas, as tabernas lisboetas tiveram como sinónimos ou similares baiucas, botequins, cafés de camareiras, carvoeiros, casas de galegos, casas de iscas, retiros, talhos, tascas, o diabo-a-sete no domínio dos vinhos e petiscos. E igualmente "covas fundas", onde, informa Albino Forjaz de Sampaio, se bebia "vinho do Samouco em copos de vidro de assento maciço, projécteis temíveis".

 

Ora este Cova Funda hoje aqui trazido parece não ter parentesco com a designação antiga. Segundo a narrativa de Jaime Dias, funcionário da casa há 29 anos, o que nos idos de 1958 aqui existia era um lugar de frutas e hortaliças e carvoaria. Na década de 60, um tal sr. Manuel fundou o restaurante e, por ser natural da povoação minhota Covas de Baixo, resolveu baptizá-lo de Cova Funda. Em 1977 mudou para as mãos de António Silva, vouzelense, ainda seu proprietário e responsável pela cozinha, com o filho a ajudar na gerência. Comportando 70 fundistas repartidos por duas salinhas e um balcão, as instalações são afáveis, escaroladas, luminosas, de mesas um tanto pequenas mas devidamente guarnecidas.

 

A lista concentra-se essencialmente nos Pratos do Dia. Todavia, só variam diariamente 2 pratos de peixe e 2 de carne; os restantes 11 marítimos e 4 carnais são praticamente inamovíveis. Na parte assumidamente fixa da lista figuram 2 Sopas, 6 Entradas, 3 Omeletas, 3 Saladas, 5 Mariscos, 2 Peixes (bacalhaus) e 11 Carnes. Parece muito, e é, mas o cidadão vê-se em dificuldades para escapar ao trivial e à grelha.

Provas de telegrafia. Boa "chamuça" (€ 0,85), apreciável "rissol" (€ 0,85), farinhento "croquete" (€ 0,85). Categorizado "paio" (de Barrancos, € 5), "pata negra" (€ 9,50) mediano. "Puré de cenoura com legumes" (€ 1,75) com excesso de batata no primeiro.

 

Para testar o nível dos peixes, resplandecentes no expositor (incluindo os de aquacultura), a "garoupa grelhada" (€ 15) exibiu-se em plenitude. Matéria-prima impecável e bem trabalhada e correctamente acaudatada no "bacalhau à lagareiro" (€ 13). "Caldeirada de bacalhau" (€ 10,50) agradável, pouco puxada, de molho leveiro, o bacalhau é que podia ter vindo mais limpo de espinhas. O "cozido à portuguesa" (€ 10,50) - às quintas-feiras, porém nesta altura já não o devem fazer por incompatibilidade, dizem, com o tempo quente - com tudo o que lhe é devido e meticulosamente executado, com realce para as carnes de porco previamente tratadas no sal. Com seu pão frito e batata cozida, o "coelho à caçadora" (€ 13,50), embora sem exuberância, esteve suficientemente saboroso. Temperado e confeccionado a preceito, é claro que se mostrou saborido o "pernil de porco assado no forno" (€ 9,50), só pecando as batatas pelo óleo já envelhecido em que fritaram.

 

Uma dezena de doces cumpre galhardamente o seu papel, como o demonstraram os provados "chiffon de noz" (€ 3), "torta de laranja" (€ 3) e "quindim" (€ 3). Carta de vinhos a precisar de reforço de brancos e apenas parcialmente datados os tintos: 42 tintos, 6 brancos, 4 verdes brancos, 3 verdes tintos, 7 espumantes e 1 champanhe.

 

Serviço familiar expedito e amável.

 

Restaurante que já ultrapassou o âmbito do bairro, simpático, o que faz, faz bem. Contudo, está excessivamente confinado à ditadura da grelha. Um pouco mais de comida de tacho, se quiserem fazer o favor.

  

Restaurante Cova Funda
Rua Augusto Machado, 3-a/b
Lisboa
Tel. 218 492 125
(fecha aos sábados ao jantar e aos domingos)

 

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2010

 

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